Uma revolução silenciosa está se formando.
À medida que a ideia do que constitui uma família mudou drasticamente em grande parte do mundo desenvolvido nas últimas décadas, o Japão ficou para trás. Mas, nos últimos anos, o formato da família japonesa começou a mudar. O ideal tradicional de um homem provedor e uma mulher dona de casa está se tornando cada vez mais obsoleto. Com o aumento da participação das mulheres no mercado de trabalho, os homens estão se envolvendo mais em casa. Em 2025, a porcentagem de pais que tiram licença-paternidade ultrapassou 40% pela primeira vez, um aumento significativo em relação aos apenas 5% em 2017. Mais mudanças estão por vir no próximo ano.
Considere a questão da guarda após o divórcio. O Japão ainda permite apenas a guarda exclusiva dos filhos. Um dos pais, geralmente o pai, perde o direito legal de ver a criança após o divórcio. Isso tem gerado fortes críticas, tanto no país quanto no exterior. Veículos de comunicação têm mostrado pais furiosos e desesperados realizando protestos públicos para exigir o direito de visita.
Isso mudará em 2026. Uma revisão do código civil do país — a primeira em 77 anos — foi decidida em 2024 e entrará em vigor no próximo ano, permitindo que pais divorciados tenham a guarda compartilhada. O objetivo não é apenas acabar com o afastamento, mas também combater o triste histórico do Japão em relação à pobreza entre famílias monoparentais. Menos de 30% das mães divorciadas recebem pensão alimentícia de seus ex-maridos, e quase metade das famílias monoparentais vive em situação de pobreza relativa. Os legisladores esperam que manter os pais conectados aos seus filhos incentive a responsabilidade financeira.
Ainda assim, grande parte da oposição à reforma vem de grupos de defesa dos direitos das mulheres, que argumentam que a lei pode colocar em risco mães solteiras que fugiram de casamentos abusivos, obrigando-as a manter contato com ex-maridos controladores ou abusivos. Mas muitos acreditam que é um passo na direção certa, proporcionando a flexibilidade tão necessária. É um reconhecimento de que as ideias tradicionais de família, e as leis baseadas nelas, já não refletem a realidade da maioria das pessoas.
A eleição, em outubro, da primeira-ministra do Japão, Takaichi Sanae, representa uma vitória para a igualdade de gênero em um país onde as mulheres historicamente são sub-representadas nos negócios e na política. Contudo, sua ascensão não sinaliza uma guinada liberal mais ampla. Conservadora em questões sociais, ela se opõe à permissão para que casais mantenham sobrenomes diferentes. Pela lei atual, que exige que os casais compartilhem um único nome, 95% das mulheres adotam o sobrenome do marido.
Os conservadores argumentam que alterar essa lei criaria conflitos entre casais, confundiria as crianças e prejudicaria a união familiar. Mas a distância entre a política e a opinião pública está aumentando. As pesquisas mostram que a maioria dos eleitores considera a regra atual ultrapassada. A maioria dos partidos de oposição, e até mesmo alguns membros do Partido Liberal Democrático, que está no poder, são a favor da mudança.
Apesar da inércia política, o Japão está encontrando outros caminhos para a reforma. O casamento entre pessoas do mesmo sexo é outra frente onde a pressão está aumentando. Ainda é proibido no Japão, mas a maioria dos municípios oferece “sistemas de parceria” que reconhecem simbolicamente os casais homossexuais. Mais de 9.000 casais se registraram nesses programas, o que demonstra que as atitudes sociais e os governos locais estão bem à frente dos políticos nacionais. Os tribunais também estão se adiantando em relação aos legisladores. Em março de 2025, um tribunal superior declarou a proibição inconstitucional — a quinta decisão nesse sentido. Uma decisão da Suprema Corte é esperada para 2026. Se ela decidir contra a proibição, os legisladores sofrerão pressão para agir. No Japão, onde a reforma política costuma ser glacial, o litígio é uma das poucas vias confiáveis para a mudança.
Alguns esperam que essas reformas possam até ajudar a resolver um dos maiores desafios do Japão: sua baixa taxa de natalidade. Demógrafos argumentam que permitir que as famílias se formem de maneiras mais flexíveis pode ajudar a diminuir as barreiras ao casamento e à parentalidade. Em 2026 , o Japão não terá resolvido a tensão entre tradição e modernidade. Mas será mais difícil fingir que a natureza da família permanece inalterada.




