Teologia é para todos os cristãos

GOSPEL
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A teologia é acessível a todos os cristãos, com práticas simples de estudo e oração

“Eu não sou uma pessoa intelectual, teologia não é para mim”, respondeu minha amiga da igreja quando a convidei para participar de um grupo de leitura teológica.

Entendo por que ela recusou. Nossa comunidade tem muitos “profissionais” da teologia, pessoas com formação avançada que atuam na academia ou no ministério. É fácil supor que só esses grupos dedicariam tempo significativo ao estudo teológico.

Mas eu disse a ela que estava errada ao se excluir. A teologia não é apenas para profissionais, é para todos os cristãos.

A teologia pode parecer intimidante para alguns, mas, em sua essência, é simplesmente falar sobre quem Deus é e o que Ele fez. Pense em como Deus nos criou: de todas as suas criaturas, Ele nos deu mentes capazes de conhecê-Lo e vozes para falar sobre Ele. Deus nos presenteou com a linguagem para que possamos “falar bem do Seu Nome” (Salmo 100:4, Coverdale Psalter). Fomos feitos para sermos teólogos.

Além disso, o estudo teológico não é apenas um meio para um fim, mas um bem em si mesmo. Por isso, Paul Griffiths afirma que todo teólogo deveria ser, antes de tudo um amador, um amante. Quando amamos alguém, prestamos atenção profunda. Queremos conhecer melhor quem amamos. Assim, a teologia é uma forma importante de cumprir o maior mandamento de Jesus: “Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todo o teu entendimento” (Mateus 22:37, destaque nosso).

Na última década, tive o privilégio de estudar teologia com muitos amadores. E me convenci de que o pensamento teológico profundo pode fazer parte da vida cristã normal.

Como se tornar um teólogo amador

Qualquer pessoa que desejar pode se tornar um teólogo amador. Isso acontece, principalmente, por meio de disciplinas espirituais que cultivam o estudo e nos formam para amar o Senhor com a mente. Quatro práticas ajudam a moldar um teólogo amador:

A primeira prática é dizer não às distrações. A teologia é feita por amor, e amar significa dar atenção. Mas manter a atenção hoje é um desafio heróico. Rotinas sobrecarregadas, ruídos constantes e dispositivos tecnológicos nos distraem o tempo todo. (Exemplo: enquanto escrevia isso, meu celular tocou e me tirou do foco!)

Se queremos pensar profundamente sobre Deus, precisamos reservar um tempo livre dessas distrações externas. Começa com honestidade: não é possível fazer várias coisas ao mesmo tempo e ser estudioso. Não conseguimos resistir sempre à sedução das telas.

Vamos ser práticos. Separe uma hora por semana longe da TV, computador e celular. No começo, talvez seja 20 minutos três vezes por semana. O mais importante é que esse tempo seja livre de telas. Só assim você conseguirá dizer sim ao trabalho difícil de prestar atenção.

A segunda prática é aprender a ouvir. Conhecemos e falamos de Deus porque Ele já nos conhece e falou conosco. Não começamos essa conversa. Por isso, nosso trabalho como teólogos amadores começa ouvindo o que Deus já disse. A teologia amadora começa com a escuta.

Por muito tempo na história da igreja, os cristãos estudavam a Bíblia ouvindo. Um dos métodos principais foi a lectio divina (leitura sagrada): uma meditação lenta, repetida e orante sobre um texto bíblico.

Para experimentar a lectio, escolha um salmo e leia-o em voz alta, lentamente, três vezes. Na primeira leitura, pergunte: Qual palavra ou frase chama atenção? Na segunda, pergunte: Onde está Cristo neste salmo? Na terceira: Como o Senhor me convida a responder? Não tenha pressa. Permaneça em silêncio entre as leituras. O objetivo não é dominar o texto, mas ser transformado por ele, encontrar a realidade do amor de Deus que está por trás das palavras. A lectio treina o ouvido e o coração para ouvir o que o profeta Elias ouviu: o “sussurro suave” de Deus (1 Reis 19:12).

A terceira prática é pensar com a igreja. Eu costumava achar que ler teologia antiga não era para a maioria das pessoas até encontrar o prefácio de C. S. Lewis para a obra Sobre a Encarnação, de Atanásio. Ele é famoso por defender a leitura dos clássicos, mas seu ponto principal é que essas obras devem ser lidas não só por acadêmicos, mas por todo cristão que quer entender melhor o evangelho.

A maioria dos fiéis talvez discorde, achando que ler um bispo do século IV seria perda de tempo, pois não entenderiam direito. Mas e se o objetivo não for dominar o texto? E se for benéfico lutar com o que ainda não entendemos completamente? Estou convencido de que “entender tudo” não é o propósito principal. Não é preciso compreender perfeitamente para que a leitura seja frutífera.

Se quiser tentar pensar com a igreja, siga a sugestão de Lewis e leia Sobre a Encarnação. É um relato impressionante de Deus assumindo a natureza humana que se lê como um sermão. Se for como eu, você não entenderá tudo na primeira leitura e tudo bem, especialmente se praticar a última prática.

Estude em comunidade e cresça na fé

A quarta prática é estudar em comunidade. Não faça isso sozinho. Tenho boas notícias: minha amiga que se achava “não intelectual” acabou aceitando participar do grupo de leitura teológica da igreja. Ela descobriu que sentar-se à mesa para discutir teólogos antigos como:  Atanásio, Agostinho, Juliana de Norwich, Teresa de Ávila, vale muito a pena. Ela percebeu que podia estudar com proveito, justamente porque estudava com outros.

No excelente livro How to Think, Alan Jacobs derruba o mito de que pensar bem é um ato solitário. O pensamento é social, maravilhoso e inevitavelmente. Quando lemos, discutimos e refletimos com outras pessoas, enxergamos mais do que poderíamos sozinhos. Juntos, questionamos, expressamos dúvidas e somos honestos sobre o que ainda não entendemos. E, assim, Cristo, o objetivo do nosso estudo, promete estar presente: “Porque onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, ali estou no meio deles” (Mateus 18:20).

Quem deseja se tornar teólogo amador não deve fazer isso sozinho. Escolha pessoas confiáveis para pensar junto, aquelas que valorizam mais a verdade do que parecer inteligentes. Marquem um período, talvez um semestre, e reúnam-se a cada semana ou a cada quinze dias. Orem em lectio, leiam um li


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